Lena Lustosa
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Queremos a desigualdade




Confesso que ando desanimada, meio sem rumo diante de tantos discursos vazios e não condizentes com a prática das pessoas. Faço uso das palavras do apóstolo Paulo: " A fé sem obras está morta".

Observo várias pessoas, algumas pelas quais tenho até simpatia e admiração, fazerem um discurso lindo sobre igualdade, mas na prática e internamente, amam a desigualdade. Há tempos, resolvi aceitar a triste realidade de que nós, seres humanos, somos contraditórios. No entanto,  é tormentosa essa aceitação. Penso que nem Hamlet teve tantas inquietações como as que tenho sobre isso.

Os discursos em prol  da igualdade são lindos de se ver e ouvir, convencem momentaneamente, pois é normal querer viver  num país mais igual, mas percebo que as posições estão fincadas em manter privilégios. Queremos a igualdade, porém, poucos estão dispostos a abrir mão de alguma coisa em prol de consegui-la. Isso,  me faz acreditar que há mais falácia que atitude. 

A desigualdade é o que move os discursos no Brasil, sejam de ódio ou  amor. Quando falo em igualdade, alguns vêm logo com uma crítica ridícula e sem fundamento algum de que sou de esquerda ou comunista. Querer igualdade é ser comunista ou de esquerda?

Esse argumento é fácil de se refutar, mas nem sempre o faço. Basta olharmos países como a Suécia e a  Inglaterra, bem mais igualitários que o Brasil e não são comunistas. Igualdade substancial (real) e não apenas aquela da lei, deveria ser pauta de qualquer governo, independentemente de partido ou sistema  político.

Desse modo, é  bem possível que a crassa desigualdade brasileira é consequência do que queremos, pois pregamos a igualdade, mas não a queremos de fato. Queremos ser a elite desse país. Cada um quer ser diferente dos demais, queremos uma casa, um carro ou uma conta bancária que os outros não tenham. Pensando bem, que graça tem viajar para Orlando ou Paris se todo mundo pode ir? Estudar nos melhores colégios, fazer faculdade, viajar de avião ou passar férias no Litoral, se todo mundo pode fazer as mesmas coisas?

Alguns estudiosos alegam que a desigualdade é fundamental para motivar as pessoas e fomentar o desenvolvimento. O argumento é interessante, contudo, creio que a motivação não deve ser somente pecuniária, pois apesar de tanto progresso, não vejo as pessoas mais felizes em decorrência dele. Deve-se buscar a Justiça e a Proporcionalidade, pois sem ela, nossa humanidade racional se perde.

Lembro-me de quando entrei numa universidade pública para o curso de Direito, concorridíssimo à época. O professor, no primeiro dia de aula disse:  "Sejam bem vindos, vocês são a elite desse país". Naquele momento, as pessoa com acesso ao ensino superior era em torno de 5 % da população. De fato, éramos a elite do país.

Quando surgiram as faculdade particulares, os debates em torno de sua criação foram intensos. Alguns argumentos era de que iriam acabar com o ensino público superior no Brasil ou baixar  a qualidade do ensino; outros, era que bastava ter dinheiro e já teria um curso superior, ou ainda,  que até "cachorro ia ter curso superior". Observem o nível dos argumentos. No entanto, a mensagem subliminar que estava embutida nas discussões era o medo de acabar com esse nicho de "iluminados" que se constituía na elite pensante desse pais. Ninguém duvida que conhecer é poder. 

O transporte coletivo de qualidade, é altamente defensável, aparentemente parece uma ideia legal, alguns até chegam a defender sua implantação como forma de resolver os problemas no trânsito, mas só aparentemente mesmo, pois pouquíssimos se imaginam abrindo mão do carro para pegar ônibus, ainda que  o transporte público fosse de qualidade, pois no Brasil dá status ter carro. Andar de avião era coisa de rico, depois perdeu a graça porque pobre passou a andar de avião e hoje todo mundo anda. Vigora em nosso país um sistema de saúde para rico e outro para pobre; a educação do rico e a educação do pobre não são as mesmas.

A contradição se revela em todos os setores sociais, sem que seus atores se dêm conta disso, pois há uma parcela significativa da sociedade, trabalhadora e honesta, que pugna por mais direitos trabalhistas e previdenciários, mas acha normal uma empregada doméstica trabalhar em sua residência, às vezes, dormindo num quartinho menor que a casa do cachorro, não ter os mesmo direitos que eles. Afinal, para que tanta igualdade de forma  tão igual?

Sei que é utópico a igualdade plena, mas ainda sonho com uma igualdade o mais real possível, em que o básico como saúde, educação, moradia e emprego  sejam iguais para todos, independentemente da sorte do nascimento de cada um.

Infelizmente, devo concluir que amamos a diferenciação. Outro dia vi uma senhora dizer que estavam acabando com o Brasil por terem concedido FGTS para as domésticas e que agora as empregadas iam ganhar mais que as patroas. 

Sai de perto para não ser chamada de comunista, pois houve uma época que nos ensinavam que comunistas comiam criancinhas e nesses tempos em que se acredita em tudo que dizem por aí, eu tenho até medo de ser acusada de ser comunista ou de fazer bruxaria. Nessa época de caça às bruxas, tô fora!
Lena Lustosa
Enviado por Lena Lustosa em 13/03/2018
Alterado em 13/03/2018
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